um post que não meu
Procurando um motivo nas palavras do convidante, encontrei silêncios e inefáveis não-meus; nas minhas, encontrei nenhuma linha-mestra que pudesse colocar acima da minha cabeça e usar como conduinte-neutro de idéias. A liberdade temática colocada no meu colo, de tão pesada, prostou-me as idéias: chupou o seio até o último lácteo mililitro. Que fazer? Guio-me - tento-me guiar - pelo bom mesmo é licença pra falar da gente mesmo, mas o blog é dos-outros: em casa alheia, a gente limpa os pés antes de entrar, pede com licença e agradece cada regalia servida, cada chá, cada biscoitinho, cada suquinho de laranja. Então: sem reclamar, sem lirismo - quanto possível - e anda colocar as roupas domingueiras. Contudo, paro para perguntar para quê tanto decoro, quando o convite - descoberto via e-mail - foi feito em singelas 33 sílabas e três linhas - contei-las, sim. Capitu morreu em menos de uma; Tolstói arrematou sua Anna em uma e meia; Pessoa jogou a responsabilidade no Latim; Orwell definiu algo-que quinze páginas em três premissas. Paro de perguntar, então, e respondo: detenho-me ao decoro e apóio-me nos Grandes para fazer desta visita algo-mais do que aparenta ser. Assim, pouca coisa jaz sub-reptícia a esse palavreado acima, mas antes de ir-me - vim apenas como um alô, por ora - deixo-os em melhores companhias, esperando tornar claro o que não se pode iluminar:
Tudo o que sonho ou passo, // O que me falha ou finda, // É como um
terraço // Sobre outra coisa ainda, // Essa coisa é que é linda.
O resto é silêncio. Abraço.
*Caio é amigo letrado e gosta de mandar as pessoas, err, como dizer?, auto-infligir-se em suas reentrâncias costeiras, ou algo assim. O velho Wittgenstein já sabia: o que se diz tem menor importância que o modo de dizê-lo, e meu convidado aqui corrobora a teoria. Obrigado, Caio.

Estou a (tentar) estudar o Tractatus para apresentá-lo em encontro. Acredito não ter agradecido o espaço: obrigado, amigo: estes óculos de aros moderninhos estão sempre à disposição.
Comment by Caio Marinho. — July 19, 2007 @ 4:16 pm
Gosto do Tractatus; meio maluco e tudo, mas muito bom. Quanto ao espaço, de nada =]
Comment by Ed — July 19, 2007 @ 4:38 pm
“Tudo o que sonho ou passo, // O que me falha ou finda, // É como um
terraço // Sobre outra coisa ainda, // Essa coisa é que é linda.”
Isto. Tenho na parede de meu quarto.
Comment by Rita — July 22, 2007 @ 12:43 am
O Tractatus é fundamental, já que ele virou o assunto…Tão fundamental quanto a Crítica da Razão Pura!
Comment by osrevni — July 23, 2007 @ 11:52 pm
It’s imperatvie that more people make this exact point.
Comment by Lexine — October 6, 2011 @ 5:32 am
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Comment by asirflbowm — October 6, 2011 @ 5:58 pm
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Comment by osfkuipl — October 10, 2011 @ 3:08 pm