avec

September 23, 2007
o bom de escrever aqui é que ninguém ou quase ninguém me lê. porque acontece um troço idiota quando se escreve num blog com pelo menos meia dúzia de leitores, como o sententia: a gente acaba achando que as pessoas esperam alguma coisa concisa da gente; o que não chega a ser chato, não é isso que ‘tou dizendo; é que é um negócio embaraçoso à beça, para ser simples nas palavras. exemplo: se escrevo um post bastante espontâneo, com palavras tolas, vulgares, logo ponho-me a pensar "ah, meu deus, o que eles vão pensar de mim?" É com esse tipo de coisa que os sociólogos ganham a vida.

bastard

September 20, 2007

"Porquanto o fim do mentiroso é simplesmente encantar, fascinar, proporcionar o agrado. Ele é o verdadeiro fundamento da sociedade; e um jantar sem a sua figura, mesmo na morada dos grandes, seria tão insignificante quanto uma conferência na Royal Society, ou um debate nos Incorporated Authors ou uma das burlescas comédias de M. Burnand."

[Oscar Wilde. A Decadência da Mentira]

comovido

August 27, 2007

mas como eu disse, fui pegar um café. wathever. eu sou muito largado com este blog aqui, não é? nem maiúsculas eu uso. mas o que eu queria dizer que há poucos dia eu voltei a me comover com a poesia, como há muito não acontecia. eu já li muita poesia, só deus sabe. tenho várias na ponta da língua, e ainda muitas outras entranhadas no cérebro. ocorreu que, na semana passada, numa aula de modernidade, cultura e política, meu professor, um jovem simpático - vejam que também sei elogiar - recitou Drummond: "Eu não devia te dizer// mas essa lua// mas esse conhaque// botam a gente comovido como o diabo." E, poxa vida, há um charme indizível nesse negócio de ficar comovido como o diabo.

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August 16, 2007

Meu vizinho Aristóteles disse assim que o homem é um ser social. Alou, vizinho.

teologia

August 3, 2007

Aí vocês vão estranhar eu dizer isso, porque tenho fama de rabugento e cínico e sarcástico etc, mas não sou assim o tempo todo, não, senhores. Eu sou um moleque, eu sou um travesso (medo de escrever isso e vocês, mentes poluídas, aludirem àquele ajuntamento de pessoinhas que, com instrumentos como latas, pandeiros e wathever, produzem um ritmo não recomendável). O que ocorre é que eu tenho a honra de trabalhar com uma cristã verdadeira (aka chata), protestante, ingênua e concomitantemente fanática; de tais circunstâncias faço proveito para apreender mais sabedoria ou, como diz ela, mais "discernimento" sobre a alma evangélica e, assim, melhor entender os efeitos que um discurso inflamado dum pastor com voz de juízo final pode causar em uma pessoa que, antes que entregar o coração a Jesus, entregou-o à igreja da esquina (com seus teclados e baterias e guitarras e potentes amplificadores). Essa moça, a evangélica, às vezes ela me irrita; e então a chamo "encosto", já sabendo ser isso uma ofensa, deus do céu. Dia desses, num momento de total e cínica descontração, botei a minha mão direita sobre a sua cabeça, fechei com força fiel os olhos e falei como que lançando um sortilégio, mas para o bem: "sssaai!"(coisa que aprendi há anos, quando eu via programas correlatos na tv). Ela me olhou com suas olheiras e disse indignada:

 

__Na cabeça de um cristão não se põe a mão.

 

Coisa que me fez rir um pouquinho. Mais tarde, como eu perguntasse muito o porquê, ela explicou-me que a cabeça e os pés de um cristão são pontos "consagrados", e que somente os pastores, missionários e demais abençoados a podiam tocar nessas "partes". Fiz que sim (eu nunca havia ouvido uma balela tão grande, não obstante eu já tenha ouvido várias). Ontem foi a vez de mais um ensinamento inédito, ao qual a minha alma agradeceu de joelhinhos: disse-me ela que se eu desejo algo, é preciso orar; e mostrou-me de forma prática o sentido da palavra Oração: Orar + Ação; ou seja: ore primeiro, aja depois. Reze, e mexa-se. Peça, e trabalhe. E por aí vai. Foi uma lição.

 

Mas a sério: falando disso me lembrei de outra coisa: a igreja vem perdendo progressivamente as suas identidades. O protestantismo, quando surgiu lá pelo século xvi com o senhor Martinho Lutero, tinha toda uma característica esquerdista, quebrando coisas, lutando por reformas e ansiando por espalhar o conhecimento luterano pelas terras do sacro império romano. Hoje, no entanto, as igrejas protestantes, em sua maioria,  não são igrejas, são templos (construídos para a glória do senhor), e seus dirigentes são muitas vezes políticos endinheirados que, vez por outra, acabam presos por aí, com suas malas pesadinhas. Senhor Lutero, o seu sonho de uma igreja esquerdinha falhou: os pastores hoje precisam ostentar um luxo só mantido pelo capitalismo visceral, pelo dinheiro dos fiéis. Não espanta o fato de a Igreja Universal, para citar um só exemplo, ter instalado próximas ao altar maquininhas de débito e crédito: é o dízimo com comodidade.

 

existencialismo

July 25, 2007

Eu simplesmente não consigo acreditar nessas pessoas que põem-se a andar pelas ruas, pelos pontos de ônibus com uma caixinha apoiada na barriga a gritar "olha a pipoquinha, olha a balinha e olha a paçoquinha". São míticos esses seres que, afinal, são o retrato do país, do "brasileiro que não desiste nunca".

um post que não meu

July 19, 2007

Procurando um motivo nas palavras do convidante, encontrei silêncios e inefáveis não-meus;  nas minhas, encontrei nenhuma linha-mestra que pudesse colocar acima da minha cabeça e usar como conduinte-neutro de idéias. A liberdade temática colocada no meu colo, de tão pesada, prostou-me as idéias: chupou o seio até o último lácteo mililitro. Que fazer? Guio-me - tento-me guiar - pelo bom mesmo é licença pra falar da gente mesmo, mas o blog é dos-outros: em casa alheia, a gente limpa os pés antes de entrar, pede com licença e agradece cada regalia servida, cada chá, cada biscoitinho, cada suquinho de laranja. Então: sem reclamar, sem lirismo - quanto possível - e anda colocar as roupas domingueiras. Contudo, paro para perguntar para quê tanto decoro, quando o convite - descoberto via e-mail - foi feito em singelas 33 sílabas e três linhas - contei-las, sim. Capitu morreu em menos de uma; Tolstói arrematou sua Anna em uma e meia; Pessoa jogou a responsabilidade no Latim; Orwell definiu algo-que quinze páginas em três premissas. Paro de perguntar, então, e respondo: detenho-me ao decoro e apóio-me nos Grandes para fazer desta visita algo-mais do que aparenta ser. Assim, pouca coisa jaz sub-reptícia a esse palavreado acima, mas antes de ir-me - vim apenas como um alô, por ora - deixo-os em melhores companhias,  esperando tornar claro o que não se pode iluminar:

Tudo o que sonho ou passo, // O que me falha ou finda, // É como um
terraço // Sobre outra coisa ainda, // Essa coisa é que é linda.

O resto é silêncio. Abraço.

*Caio é amigo letrado e gosta de mandar as pessoas, err, como dizer?, auto-infligir-se em suas reentrâncias costeiras, ou algo assim. O velho Wittgenstein já sabia: o que se diz tem menor importância que o modo de dizê-lo, e meu convidado aqui corrobora a teoria. Obrigado, Caio.

containment

July 18, 2007

O post anterior explica bem porquê eu escrevo aqui. Ulisses, eu não posso acreditar que você sinta preguiça por ter de clicar em mais uns links; blogueiro não tem preguiça de clicar em links, ainda que a preguiça tenha lá todo um charme e tal. Eu não estou seguindo a regrinha que criei para mim mesmo: posts pessoais aqui e outros sobre literatura acolá. Mas quem precisa de mais regras? Eu é que não. Caio, você que gosta de geórgia, quer escrever um post sobre qualquer coisa para eu postar aqui? I hope.

Há uns meses eu comprei um aparelho de mp3 pra mim e ele veio com defeito. Mandei pra empresa fabricante e ontem, após 20 dias, eles devolveram o negócio, e hoje eu já pude vir trabalhar batendo o pesinho. Glórias ao senhor.

Aí vêm vocês me dizer "você devia ter comprado um mp4", mas eu sou mui conservador, e por isso estou sempre, propositalmente, um passo antes de vocês para lhes presenciar o tropeço.

au revoir.

raisons

July 16, 2007

Se eu disser pra vocês que o maior motivo pelo qual escrevo aqui neste blogue é esta fonte Geórgia (acho que é a Geórgia; meus conhecimentos de tipologia são bem limitados porque as aulas na faculdade eram um tédio, vocês entendem) você vão acreditar?

11/07

July 11, 2007

Fiz ontem a minha inscrição para um concurso público. O tempo segue e, sabem como é, o capital faz-se necessário, urgente. Principalmente se você tem planos, como os meus, de casamento, essas coisas. A prova será em agosto e, se eu passar, serei mais um à toa na Superintendência de Desenvolvimento da Capital, ganhando dinheiro às custas do governo. Mentira, vou trabalhar à beça, que é isso que fazem os concursados. Não vou estudar outras coisas além do Ian McEwan e do Proust, vou logo avisando. Talvez eu dê uma lida numas matérias poucas de Direito Administrativo, assim, superficialmente. Quanto ao mais, vai depender dos meus (des) conhecimentos atuais sobre redação dissertativa, regrinhas gerais do idioma e algo de informática. Pois é: a área na qual atuarei, caso passe, não tem nenhuma relação com a literatura, tampouco com a comunicação social. Não à toa: anos tentando imaginar como seria a mentalidade de um jornalista até descobrir que o jornalista não tem mentalidade nenhuma.

Tardezinha: café, suco artificial e música razoável. Daqui a meia hora vou me encontrar com a minha guria alí no centro da capital para irmos juntos para casa, eu para a minha e ela para a dela. Ela, aliás, terminou de ler ontem o Franny & Zooey e hoje me xingou porque eu não lhe emprestei ainda outro livro. Vícios e virtudes. É bom ir embora com ela; a gente vai falando mal e rindo dos outros durante todo o percurso; é meu esporte favorito.

Um abraço.

P.s.: Dizem que este é um site feito para escrever livros (?). O que vocês acham?